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DÁLIA VERMELHA
da vida se faz a Feira de Castro

Nos anos 80, numa barraca de feira, por entre copos e conversas, partilham-se estórias e revelam-se segredos. Já não há noites de cantares ao desafio e as pessoas parecem estar a desistir do espanto. Acordam-se personagens do passado e fala-se das incertezas do futuro. Uma mulher que mudou de vida. Um menino que sonhou ser Homem Bala. Uma cantadeira que gostava de palavras vadias. Uma mulher perseguida pelos comboios. Um poeta que vendia a sorte. Uma trapezista com medo da queda. Uma rapariga revoltada com as injustiças da sociedade. Uma filha à procura do pai. Estórias que se cruzam e têm em comum o espaço da feira, como se fosse a palma da mão e aí estivesse escrita a sina de toda esta gente. A feira era o mundo. Nenhum momento marca mais a vida de Castro Verde do que a Feira de Castro. E é da vida que se faz a feira, quem vem para vender não traz só mercadorias e os que vêm para comprar não levam só frutos secos e agasalhos para o inverno. Desta feira leva-se sempre mais qualquer coisa. E para os que cá estão é igual. Ainda a feira não chegou e já há qualquer coisa no ar, talvez seja a luz do sol que corta baixo, as azeitonas verdeais ou as dálias vermelhas que nascem nos quintais.

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A peça baseia-se num exercício de memória sobre a Feira de Castro, mas é mais que isso, é também a transgressão do que daí resultou. Se por um lado há a urgência da salvaguarda da memória, por outro também há a urgência de dizer coisas, de pôr a nu a matéria-prima de que somos feitos e os confrontos interiores e exteriores que resultam do que vivemos.
Por vezes, quando o texto se baseia em materiais concretos como entrevistas, depoimentos, documentos escritos, a separação entre realidade e ficção pode ser ténue. Outras vezes isso não acontece e a memória é assumidamente ficionada. A personagem pode ser real, tal como o tempo e o espaço onde se encontra, mas o que diz pode resultar desse desejo de dizer coisas, do projeto de teatro que quer ter uma intervenção sobre o mundo, transformando-o.

Em dois momentos, o texto resulta da adaptação livre de excertos de duas obras, “Não há Seda nas Lembranças”, de Jorge Serafim, e “Viagem ao Coração dos Pássaros”, de Possidónio Cachapa. São também utilizados apontamentos biográficos e as sábias palavras do poeta António Aleixo, que ao longo do texto surgem como a voz da consciência, a solidariedade contra a indiferença que a sociedade engendrou. 

Independentemente do repositório de memória, de se ter conhecido ou ouvido falar das personagens que dão voz e silêncios à narrativa, de se viver intensamente a Feira de Castro, o importante é o que se quer dizer com estas estórias que se cruzam. O importante é o teatro, não fosse a Feira de Castro também uma grande encenação.

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